ELIANE PINHEIRO

Fui criada em igreja evangélica pentecostal. Frequentadora da escola bíblica dominical, EBF, cultos de doutrina, círculos de oração, reuniões de consagração em jejum pelas manhãs, vigílias, cultos aos domingos à noite. Naquela época, na periferia, não se falava em exigir nada de Deus, nem de “dar ordens ao mundo espiritual” com base na oferta dada em dinheiro. Ainda não havia essa barganha de “pago dízimo alto, então Deus me trata como um cliente VIP”.
Não havia a ideologia burguesa da meritocracia, nem desejo de viver como “os ímpios”: incorporar a luxúria ao evangelho e reproduzir as camadas sociais nos templos. Quem sofria o desemprego, por exemplo, “estava passando por uma provação” e não sendo um vagabundo ou um acomodado. Então os irmãos ajudavam no sustento da família e na busca por oportunidade de trabalho. Lembro bem de minha mãe pela manhã ajoelhada em volta de sua cama orando em lágrimas pela despensa vazia e à noite, a chegada de uma compra farta com biscoitos e verduras no meio dos alimentos básicos entregues discretamente a meu pai desempregado, depois do culto em que ele estava. Tempos depois, era nossa família que levava alimento a uma irmã negra, viúva. Em segredo. “Não saiba sua mão direita o que faz sua mão esquerda”.
A modéstia e as características “do fruto do Espírito Santo” eram muito incentivados: paz, amor (e não discurso de ódio), longanimidade (paciência histórica, e não intolerância), bondade (e não vingança), mansidão (e não raiva babante e dentes cerrados), domínio próprio (autorregulação das emoções e impulsos), benignidade (caridade, ação de fazer o bem), fidelidade (e não puxada de tapete entre irmãos), alegria. “Deus aborrece os arrogantes e dá graça aos humildes”. “Quem fecha seu ouvidos ao clamor do pobre também clamará a Deus e não será ouvido”.
Éramos ensinados com base nos princípios das igrejas comunitárias orientadas pelo apóstolo Paulo: “Que nenhum de vocês padeça como homicida, ladrão”. “Tirem do meio de vocês aqueles que, DIZENDO-SE IRMÃOS, são avarentos, maldizentes, corruptos, adúlteros. Com esses, nem comais (ou nem cumprimentais). “Soube que há entre vocês quem tenha relações sexuais com a mulher do pai. Expulsem-no!”.
Como as igrejas eram comunidades pobres, as cestas básicas e as visitas aos doentes eram a regra. As matriarcas, maioria negra, que cuidavam para ofertar ajuda sem alarde para não constranger quem estava vulnerável.
Vi de perto muita contradição também: a opressão às mulheres, o julgamento e exposição de “pecados sexuais” e a tolerância à mentira, falsidade, difamação, hipocrisia e superioridade espiritual em relação às outras religiões. Mas o dinheiro ainda não era o deus dos crentes daquelas comunidades. A preocupação maior era a transcendência, as experiências sobrenaturais, os milagres, a busca por ter algum dom descrito nos pentecostes. As artes horizontais (e não os artistas gospel) eram muito valorizadas: todo membro poderia participar dos corais, orquestras, jograis, teatros, quarteto de cordas, escola integral de música.
Na dolescência tive acesso à literatura da teologia da libertação, à teologia da missão integral e também a textos não religiosos que falavam em justiça social e contra o conformismo. Que mostravam que a pobreza não era um plano misterioso de Deus, mas perversidade política, problema de ordem econômico-política e Estatal. Então a Deus não atribuiriamos nem a culpa por nossa pobreza, nem o cobraríamos para que fôssemos ricos. Achei que havia pontos em comum com o Cristo e os apóstolos do novo testamento e Marx.
Assim que completei 18 anos fui para uma igreja neopentecostal em busca de liberdade para usar calça no inverno, andar de bicicleta com bermuda, fazer as unhas, cortar o cabelo, ir à praia de short e maiô sem ser publicamente disciplinada na igreja. Encontrei um discurso que unia a permissão à fazer tatuagem e a usar biquíni fio dental com o que havia de mais conservador na política. Às mulheres estava permitido serem pastoras, desde que reafirmassem que gostavam de não ter liberdade financeira para cuidar dos filhos e que a traição dos maridos era causada por seus corpos feios, ou pela negação ao sexo por elas, ou à moça que provocou seu varão que caiu na armadilha do Diabo. E os corruptos, mentirosos e adúlteros não apenas NÃO eram expulsos, ainda tinham lugar de honra no altar e falavam ao microfone. Vi toda sorte de baixaria, disputa, barganha, luxúria, exploração de trabalho e imoralidades jamais vistas entre meus amigos ateus. Em nada viviam os evangelhos, daí usarem majoritariamente os textos do antigo testamento em proveito próprio para laçar os fiéis pelo MEDO, CULPA E INTERESSE.
Por fim, este é o ponto em que quero chegar: OS IRMÃOS MAIS SINCEROS CRITICAVAM AS COISAS ERRADAS DENTRO DA IGREJA, MAS DEFENDIAM A DENOMINAÇÃO PARA OS QUE ESTAVAM FORA. Essa incoerência ética, por ser inimiga da verdade e cínica, era perpetuadora dos vícios, manipulações e FORTALECEDORA da estrutura opressora.
Demorei uns dez anos para sair daquele ambiente adoecedor em que eu confundia emocionalismo barato com experiência divina. Romper com a tradição, com valores introjetados que achamos que são nossos e não são, afastar-se de amigos de infância e juventude é um processo doloroso e solitário. Saí, perdi a culpa religiosa, ganhei saúde mental, deixei de ser uma mulher cindida entre a ética e a tradição que negava a ética no cotidiano.
Achei que nunca viveria algo parecido. MAS NO SINDICATO vi um modus operandi muito semelhante. E me vi, mais uma vez, CRITICANDO DENTRO AS IMORALIDADES E DEFENDENDO FORA A ESTRUTURA SINDICAL. Tal como uma crente piedosa, eu achava que passar pano para o autoritarismo e ao domo de ferro que perpetua o poder de quem o tem, era uma forma de não permitir que aquela estrutura tão necessária ruísse. Não suportaria ser novamente uma mulher cindida que engole sapo num lugar imutável, tragado pela tradição, viciado e conservador. Que tal como na igreja, cortava a cabeça de quem representasse alguma transformação.
Hoje, junto com Tiago Melo, divido a angústia incorfomada de quem acha que a luta precisa ser melhor organizada, que a justiça social e a ética (expressas na LUTA DE CLASSES) e a formação necessária à praxis transformadora não devem ser uma pauta abandonada, verborrágica. Não é possivel ser cristão negando Cristo na igreja, nem comunista negando a transformação social e a necessária emancipação humana. Tanto a poderosa estrutura religiosa (seja lá qual for a religião), quanto a poderosa estrutura sindical que nega o diálogo, que silencia, que dá testemunho de migalha como se fosse grande milagre e que tornam sua renovação IMPOSSÍVEIS por meio da própria organização interna de manutenção de poder PRECISAM DEIXAR DE SER FORTALECIDOS POR NÓS, SEJA POR MEIO DE DÍZIMOS OU MENSALIDADES.
O fim da história não está dado. A história é feita por pessoas. Não existe apenas OU o comformismo imobilizante OU a hétero-organização burocratizada. E viva a dialética como superação da contradição (não luto pq o sindicato não presta X fortaleço e mantenho o sindicato ruim pq não posso deixar de lutar).Busquemos outras formas de organização, verdadeiramente democráticas, horizontais, autogestionárias, em que ao invés de sacerdotes ou homens de vanguarda decidam verticalmente e convençam a multidão de suas decisões por meio de pregações no altar ou num caminhão de som, tenhamos professores e professoras (mulheres não militantes, inclusive!), quadro de apoio, equipe gestora, familias, estudantes, comunidade tomando decisões. Da base para cima. Não tratados como gente sem noção, como rebanho a ser conduzido pelo pastor.
Ainda não sabemos como fazer isso. Sabemos que religiosos ja fazem campanhas difamatórias e escolhem falar sobre as pessoas por não poderem falar sobre ideias.Uma coisa tenho certeza: em tempos de neoliberalismo fascista, as famílias e os estudantes precisam estar estar conosco na luta pela escola pública; professoras não podem ser mutiladas ou agredidas por estudantes em crise de desregulação; estudantes com deficiências e transtornos não podem sofrer a falta de estrutura e exclusão perversa a ponto de terem crises constantes e serem tratados como um estorvo e não como pessoas de direito; mães atípicas não podem ter sua frustração pelo não desenvolvimento de seus filhos, ignorada; educação infantil, quadro de apoio, pessoal da cozinha e limpeza não são, NESSA ORDEM, as bases da pirâmide; sindicato que não dá cursos sobre economia política não pode cobrar que seus filiados não sejam reacionários; sindicato que não vê relação entre as pedagogias burguesas do aprender a aprender e o fim da escola pública e/ou a reprodução e manutenção da sociabilidade capitalista são sindicatos corporativistas e não de/para transformação social. Bons salários, boas condições estruturais de trabalho, zelo pela liberdade de cátedra e pluralidade de ideias e resposta dura às perseguições e alienação do trabalho docente; atendimento real às necessidades dos estudantes em SOFRIMENTO ÉTICO-POLÍTICO (miséria, violências, falta de atendimento médico, assistência social, política de habilitação, esportes, cultura) não são lutas excludentes.
A escola não pode mais ser um lugar insuportável para estudantes e profissionais da educação formal básica. O apagão docente em cinco anos É REAL!
Alguns sindicatos até podem ter uma prática corporativista e abdicarem da luta de classes. O que não podem é ter Marx e Engels estampados na camiseta e não organizarem (e impedirem) a luta pelo fim dessa estrutura econômico-política que está nos adoecendo, matando nossos sonhos e nossos corpos.
Precisamos de sindicatos.
Não de qualquer sindicato.
Obs.: Foto de escultura de Bruno Catalano (da série Os Viajantes).


