AO DOGMATISMO, A DIALÉTICA!

Publicado: 13/06/2026 em Reflexões

ELIANE PINHEIRO

Fui criada em igreja evangélica pentecostal. Frequentadora da escola bíblica dominical, EBF, cultos de doutrina, círculos de oração, reuniões de consagração em jejum pelas manhãs, vigílias, cultos aos domingos à noite. Naquela época, na periferia, não se falava em exigir nada de Deus, nem de “dar ordens ao mundo espiritual” com base na oferta dada em dinheiro. Ainda não havia essa barganha de “pago dízimo alto, então Deus me trata como um cliente VIP”.

Não havia a ideologia burguesa da meritocracia, nem desejo de viver como “os ímpios”: incorporar a luxúria ao evangelho e reproduzir as camadas sociais nos templos. Quem sofria o desemprego, por exemplo, “estava passando por uma provação” e não sendo um vagabundo ou um acomodado. Então os irmãos ajudavam no sustento da família e na busca por oportunidade de trabalho. Lembro bem de minha mãe pela manhã ajoelhada em volta de sua cama orando em lágrimas pela despensa vazia e à noite, a chegada de uma compra farta com biscoitos e verduras no meio dos alimentos básicos entregues discretamente a meu pai desempregado, depois do culto em que ele estava. Tempos depois, era nossa família que levava alimento a uma irmã negra, viúva. Em segredo. “Não saiba sua mão direita o que faz sua mão esquerda”.

A modéstia e as características “do fruto do Espírito Santo” eram muito incentivados: paz, amor (e não discurso de ódio), longanimidade (paciência histórica, e não intolerância), bondade (e não vingança), mansidão (e não raiva babante e dentes cerrados), domínio próprio (autorregulação das emoções e impulsos), benignidade (caridade, ação de fazer o bem), fidelidade (e não puxada de tapete entre irmãos), alegria. “Deus aborrece os arrogantes e dá graça aos humildes”. “Quem fecha seu ouvidos ao clamor do pobre também clamará a Deus e não será ouvido”.

Éramos ensinados com base nos princípios das igrejas comunitárias orientadas pelo apóstolo Paulo: “Que nenhum de vocês padeça como homicida, ladrão”. “Tirem do meio de vocês aqueles que, DIZENDO-SE IRMÃOS, são avarentos, maldizentes, corruptos, adúlteros. Com esses, nem comais (ou nem cumprimentais). “Soube que há entre vocês quem tenha relações sexuais com a mulher do pai. Expulsem-no!”.

Como as igrejas eram comunidades pobres, as cestas básicas e as visitas aos doentes eram a regra. As matriarcas, maioria negra, que cuidavam para ofertar ajuda sem alarde para não constranger quem estava vulnerável.

Vi de perto muita contradição também: a opressão às mulheres, o julgamento e exposição de “pecados sexuais” e a tolerância à mentira, falsidade, difamação, hipocrisia e superioridade espiritual em relação às outras religiões. Mas o dinheiro ainda não era o deus dos crentes daquelas comunidades. A preocupação maior era a transcendência, as experiências sobrenaturais, os milagres, a busca por ter algum dom descrito nos pentecostes. As artes horizontais (e não os artistas gospel) eram muito valorizadas: todo membro poderia participar dos corais, orquestras, jograis, teatros, quarteto de cordas, escola integral de música.

Na dolescência tive acesso à literatura da teologia da libertação, à teologia da missão integral e também a textos não religiosos que falavam em justiça social e contra o conformismo. Que mostravam que a pobreza não era um plano misterioso de Deus, mas perversidade política, problema de ordem econômico-política e Estatal. Então a Deus não atribuiriamos nem a culpa por nossa pobreza, nem o cobraríamos para que fôssemos ricos. Achei que havia pontos em comum com o Cristo e os apóstolos do novo testamento e Marx.

Assim que completei 18 anos fui para uma igreja neopentecostal em busca de liberdade para usar calça no inverno, andar de bicicleta com bermuda, fazer as unhas, cortar o cabelo, ir à praia de short e maiô sem ser publicamente disciplinada na igreja. Encontrei um discurso que unia a permissão à fazer tatuagem e a usar biquíni fio dental com o que havia de mais conservador na política. Às mulheres estava permitido serem pastoras, desde que reafirmassem que gostavam de não ter liberdade financeira para cuidar dos filhos e que a traição dos maridos era causada por seus corpos feios, ou pela negação ao sexo por elas, ou à moça que provocou seu varão que caiu na armadilha do Diabo. E os corruptos, mentirosos e adúlteros não apenas NÃO eram expulsos, ainda tinham lugar de honra no altar e falavam ao microfone. Vi toda sorte de baixaria, disputa, barganha, luxúria, exploração de trabalho e imoralidades jamais vistas entre meus amigos ateus. Em nada viviam os evangelhos, daí usarem majoritariamente os textos do antigo testamento em proveito próprio para laçar os fiéis pelo MEDO, CULPA E INTERESSE.

Por fim, este é o ponto em que quero chegar: OS IRMÃOS MAIS SINCEROS CRITICAVAM AS COISAS ERRADAS DENTRO DA IGREJA, MAS DEFENDIAM A DENOMINAÇÃO PARA OS QUE ESTAVAM FORA. Essa incoerência ética, por ser inimiga da verdade e cínica, era perpetuadora dos vícios, manipulações e FORTALECEDORA da estrutura opressora.

Demorei uns dez anos para sair daquele ambiente adoecedor em que eu confundia emocionalismo barato com experiência divina. Romper com a tradição, com valores introjetados que achamos que são nossos e não são, afastar-se de amigos de infância e juventude é um processo doloroso e solitário. Saí, perdi a culpa religiosa, ganhei saúde mental, deixei de ser uma mulher cindida entre a ética e a tradição que negava a ética no cotidiano.

Achei que nunca viveria algo parecido. MAS NO SINDICATO vi um modus operandi muito semelhante. E me vi, mais uma vez, CRITICANDO DENTRO AS IMORALIDADES E DEFENDENDO FORA A ESTRUTURA SINDICAL. Tal como uma crente piedosa, eu achava que passar pano para o autoritarismo e ao domo de ferro que perpetua o poder de quem o tem, era uma forma de não permitir que aquela estrutura tão necessária ruísse. Não suportaria ser novamente uma mulher cindida que engole sapo num lugar imutável, tragado pela tradição, viciado e conservador. Que tal como na igreja, cortava a cabeça de quem representasse alguma transformação.

Hoje, junto com Tiago Melo, divido a angústia incorfomada de quem acha que a luta precisa ser melhor organizada, que a justiça social e a ética (expressas na LUTA DE CLASSES) e a formação necessária à praxis transformadora não devem ser uma pauta abandonada, verborrágica. Não é possivel ser cristão negando Cristo na igreja, nem comunista negando a transformação social e a necessária emancipação humana. Tanto a poderosa estrutura religiosa (seja lá qual for a religião), quanto a poderosa estrutura sindical que nega o diálogo, que silencia, que dá testemunho de migalha como se fosse grande milagre e que tornam sua renovação IMPOSSÍVEIS por meio da própria organização interna de manutenção de poder PRECISAM DEIXAR DE SER FORTALECIDOS POR NÓS, SEJA POR MEIO DE DÍZIMOS OU MENSALIDADES.

O fim da história não está dado. A história é feita por pessoas. Não existe apenas OU o comformismo imobilizante OU a hétero-organização burocratizada. E viva a dialética como superação da contradição (não luto pq o sindicato não presta X fortaleço e mantenho o sindicato ruim pq não posso deixar de lutar).Busquemos outras formas de organização, verdadeiramente democráticas, horizontais, autogestionárias, em que ao invés de sacerdotes ou homens de vanguarda decidam verticalmente e convençam a multidão de suas decisões por meio de pregações no altar ou num caminhão de som, tenhamos professores e professoras (mulheres não militantes, inclusive!), quadro de apoio, equipe gestora, familias, estudantes, comunidade tomando decisões. Da base para cima. Não tratados como gente sem noção, como rebanho a ser conduzido pelo pastor.

Ainda não sabemos como fazer isso. Sabemos que religiosos ja fazem campanhas difamatórias e escolhem falar sobre as pessoas por não poderem falar sobre ideias.Uma coisa tenho certeza: em tempos de neoliberalismo fascista, as famílias e os estudantes precisam estar estar conosco na luta pela escola pública; professoras não podem ser mutiladas ou agredidas por estudantes em crise de desregulação; estudantes com deficiências e transtornos não podem sofrer a falta de estrutura e exclusão perversa a ponto de terem crises constantes e serem tratados como um estorvo e não como pessoas de direito; mães atípicas não podem ter sua frustração pelo não desenvolvimento de seus filhos, ignorada; educação infantil, quadro de apoio, pessoal da cozinha e limpeza não são, NESSA ORDEM, as bases da pirâmide; sindicato que não dá cursos sobre economia política não pode cobrar que seus filiados não sejam reacionários; sindicato que não vê relação entre as pedagogias burguesas do aprender a aprender e o fim da escola pública e/ou a reprodução e manutenção da sociabilidade capitalista são sindicatos corporativistas e não de/para transformação social. Bons salários, boas condições estruturais de trabalho, zelo pela liberdade de cátedra e pluralidade de ideias e resposta dura às perseguições e alienação do trabalho docente; atendimento real às necessidades dos estudantes em SOFRIMENTO ÉTICO-POLÍTICO (miséria, violências, falta de atendimento médico, assistência social, política de habilitação, esportes, cultura) não são lutas excludentes.

A escola não pode mais ser um lugar insuportável para estudantes e profissionais da educação formal básica. O apagão docente em cinco anos É REAL!

Alguns sindicatos até podem ter uma prática corporativista e abdicarem da luta de classes. O que não podem é ter Marx e Engels estampados na camiseta e não organizarem (e impedirem) a luta pelo fim dessa estrutura econômico-política que está nos adoecendo, matando nossos sonhos e nossos corpos.

Precisamos de sindicatos.

Não de qualquer sindicato.

Obs.: Foto de escultura de Bruno Catalano (da série Os Viajantes).

Caminho se conhece andando

Publicado: 13/12/2025 em Reflexões

Eliane Pinheiro Fernandes

Um comportamento interessante que temos na tentativa de responder aos problemas de aprendizagem é a desistência de atividades nas quais o sujeito não obteve êxito e a regressão a níveis inferiores.
Quando um professor age contra a ética, tentando burlar regras necessárias à organização do trabalho (e não regras sem sentido, bobas), a tendência é aumentar a repressão.

Quando as crianças de primeiro e segundo ano do ensino fundamental se distraem em brincadeiras durante as atividades, a tendência é impedí-las de brincar (para que aprendam que “não estão mais na educação infantil”).

Quando as crianças maiores e os adolescentes não conseguem realizar atividades que exigem maior abstração, a tendência é regredir para as atividades presas ao “concreto”.
Essa forma de pensar parece espontânea, mas não é. É orientada pela teoria psicológica de que o desenvolvimento antecede a aprendizagem: se a atividade esperada não é realizada, então deve-se esperar o desenvolvimento para que ela seja aprendida.
Vigotski, negando essa tese piagetiana, comprova que o desenvolvimento humano se dá no inverso dessa lógica: é preciso insistir no que não se sabe para que se aprenda; e ao aprender, a pessoa se desenvolve.
Se o adulto não age de forma autônoma, necessitando de vigilância para fazer o que é certo, os gestores devem intensificar a autonomia, de forma que o adulto seja obrigado a responder pelos seus atos, a ser responsabilizado e cobrado por suas escolhas (justamente porque teve a possibilidade de escolha).
Quando as crianças pequenas brincam muito, é preciso organizar a rotina diária para a hora do brincar coletivo (com desafios sucessivos que complexificam o brincar que, por sua vez, colabora com a autorregulação da volição, da obediência às regras e da imaginação).
Quando as crianças maiores e os adolescentes fracassam nas tarefas escolares que exigem maior abstração, deve se insistir em apresentar mais situações que exigem abstrações por conceitos.
Se não sei nadar, não volto para o uso da bóia, mas intensifico os exercícios que me libertarão da bóia. Nado mais e observo os erros orientada por quem sabe onde eles se apresentam para que, superando-os, eu mesma me supere.
Os conservadores pensam por essa lógica: quanto mais diretiva, mais autoritária, mais religiosa, mais disciplinadora for a práxis, mais sujeitos éticos se formarão. É justamente o oposto: quanto mais se deseja o comportamento voltado à coletividade, mais se tensiona o individualismo dos sujeitos.
É obvio, mas é isto: Ninguém avança estagnado no mesmo lugar pq teve dificuldades em dar os primeiros passos. Para avançar é preciso avançar.

ELIANE PINHEIRO

DA OBVIEDADE DO QUE NÃO PARECE ÓBVIO: para desenvolver o pensamento por conceitos, é preciso aprender conceitos.
“Conceitos” é outro nome que damos a um conjunto de “CONTEÚDOS formais” – esse palavrão que a burguesia proibiu na escola do pobre, enquanto esconde amontoados de conteúdos em várias linguas e linguagens dentro de si.
Na perspectiva de Vigotski, aprender é operar cotidianamente instrumentalizado pelo objeto novo (e não decorar mecanicamente). Em outras palavras: a aprendizagem se expressa no USO COTIDIANO DA COISA APRENDIDA (relação objetividade-subjetividade). Perdoem o trocadilho. Nessa concepção, para aprender é preciso apreender.
Quando a gente não pensa conceitualmente sobre algo, tenta compreendê-lo a partir do que “parece ser”. Vigotski chama a essa inteligência – a de apreender semelhanças, diferenças e complementaridades entre objetos – de abstração por complexos. Deduz isto da análise das respostas de crianças à problemas suscitados por seus colaboradores (por desconhecerem a regra da coleção, as crianças agrupam objetos pela cor, pelo tamanho ou isolando um aspecto que esteja presente em outro – por cadeia). Ao aprender o conceito explicitado por quem propôs o problema (a explicação da lógica que orientou a organização dos objetos), desvenda-se a lógica da organização da coleção. Eureka!
Esta é a importância do ensino explícito de conceitos: compreender a raiz, a razão de ser da coisa, o como e porquê se constituiu. Sem o desenvolvimento das abstrações conceituais – pensar teoricamente – mais facilmente somos levados por doutrinas, verdades-verdadeiras, pela aparência e não pela essência.
E o grande problema que deriva disso é que a apreensão da totalidade de um objeto para a sua superação depende da capacidade desse tipo de análise minuciosa, desconfiada, atenta às contradições e grávida de sua própria caducidade (isto é, o pensamento dialético).
A análise profunda de cada pequena parte que compõe uma engrenagem (e sua relação na totalidade) seja de um instrumento físico como carros ou furadeiras, seja de um instrumento simbólico como uma corrente filosófica, ou ainda, de uma forma de sociabilidade, como o capitalismo… é meio para a sua superação. É preciso nos desenvolvermos como humanos capazes de elaborar transformações intencionais, organizadas, que se antecipam às “consequências imediatas”, cujo tempo histórico é externamente orientado quase que ao sabor do vento.
De forma quase que simplista, é por aí que caminha a ontologia materialista histórico-dialética presente na psicologia histórico-cultural. A atividade humana sensível e as condições materiais determinam dialeticamente o desenvolvimento humano do indivíduo, das comunidades, do mundo. A grande questão é passar a conscientemente orientar o curso desse desenvolvimento.
Serve para a educação escolar e para a transformação do mundo.

(Para aprendermos conceitos, estudemos conteúdos na sua relação direta com a necessidade humana que os pariu. Poema, dança, circo, economia, medicina, marxismo… é tudo “conteúdo” cheio de “conceitos”)

Manga com leite

Publicado: 29/01/2025 em Reflexões

Eliane Pinheiro

Uma tese interessante a partir de uma pesquisa bem aprofundada seria responder à pergunta “Como se constituiu a ideia de que alfabetizar crianças a partir educação infantil seja danoso para seu desenvolvimento psíquico?”. Porque aqueles que se opõem às práticas de alfabetização não se ancoram nos teóricos clássicos do desenvolvimento (Nem em Piaget, nem em sua discípula Emilia Ferreiro; nem em Vigotski, nem em Wallon). Então resta apreender qual movimento histórico produziu essa crença. Argumentar que as crianças pequenas não podem ser submetidas às lições mecanicistas de repetição, enchendo-as de apostilas e cadernos não tem sentido porque essas práticas tradicionais há muito deveriam ter sido abolidas do ensino fundamental e da EJA, isto é, essas práticas não precisam mais ser ofertaras a humano nenhum, em nenhuma fase da vida. Ninguém, dos quatro aos 98 anos precisa necessariamente ser submetido a um método de ensino (que cientificamente já foi superado) como condição para aprender a ler e escrever (o chamado ensino tradicional).
Fico curiosíssima com as respostas que essa tese traria. Provaria que as crianças ricas e de classe média, que aprendem a escrever e a ler tão logo passam a ter interesse pelo universo do mundo letrado, carregam sequelas que foram danosas ao seu desenvolvimento? Essa hipótese com certeza é falsa. As crianças pretas e as pobres-quase-pretas-de-tão-pobres estão em vantagem em relação às que já desvendaram o segredo das letrinhas que aparecem nos livros, panfletos, placas, TV e celular? Qual a RAIZ história dessa crença de que brincar e aprender são antagônicos, dicotômicos? Qual a classe social, qual raça, quais marcas filosóficas se evidenciam no desenvolvimento das crianças alfabetizadas e não alfabetizadas aos cinco anos? Que idade tinham as crianças participantes da pesquisa de Emília Ferreiro sobre as hipóteses sobre a escrita? O que aquelas crianças mostraram? Quais as hipóteses da própria Emilia Ferreiro que se confirma e quais não se evidenciam em pesquisa replicada com outro fundamento teórico de interpretação dos dados? Que conhecimento científico embasa essa crença de que a interdição às letras do alfabeto nas paredes das escolas de educação infantil seja respeito à infância?
Se alguém topar fazer essa investigação em um curso de mestrado ou doutorado, conte comigo para rascunhar o projeto e acompanhar de perto a pesquisa. Seguro a mão do ingresso à defesa, contando com as crises existenciais, acompanhento a ebós para afastar bloqueio de escrita e surtos repentinos de desistência no quarto semestre. Vale um tudo para enfrentar a marginalização fundada em senso comum com a ciência politicamente posicionada.
Minha hipótese (que pode não se confirmar) é de que as recomendações de que “comer manga com leite pode matar” e “aprender a ler antes dos sete anos é prejudicial à infância” só se aplicam à humanos negros e pobres.

(Na foto, Carolina Maria de Jesus, a favelada escritora).

RESSACA DE ELEIÇÃO

Publicado: 28/10/2024 em Reflexões

ELIANE PINHEIRO

Nessas horas os marxistas sofrem menos e não é pedantismo, amigas. Aliás, se sofrem, são mais facilmente confortados.
Não me xingem, calma. Vou tentar explicar.

É que as proposições marxistas se confirmam, apesar dos anos. As explicações sobre como funciona o Capital e o Capitalismo continuam fazendo MUITO sentido. Então em algum lugar dentro da gente, há uma subjetividade, uns sentimentos um pouquinho “preparados” no sentido de se preservar por não alimentar grandes ilusões na democracia burguesa: menos surpresas, menos decepções, saca?

Se há crise internacional do Capital, então a direita liberal facilmente troca sua moral do amor ao próximo pela moral fascista. E não é porque a população “é burra e não estudou história”, nos países com educação escolar de melhor qualidade que a nossa, a extrema direita também tem avançado. Todas as vezes que há crise do Capital, há enfraquecimento da democracia burguesa. Quem diz “liberdade, igualdade, fraternidade” são os mesmos que propõem diminuição de salários, aumento de preço de aluguel e comida, diminuição da metragem nos apartamentos do “novo empreendimento imobiliário” por preços exorbitantes, ataque às aposentadorias e mercantilização de bens que não deveriam ser fonte de lucro (extração de valor de troca ao invés apenas de se cobrar pelo valor de uso) como moradia, saúde, segurança, educação e arte.
Toda vez que há diminuição do lucro, os capitalistas se unem pela diminuição da vida de quem menos importa: são os pretos, os migrantes, os ciganos, as testemunhas de Jeová, os comunistas, os pobres – a CLASSE TRABALHADORA… o alvo. O nazismo, o fascismo, o salazarismo… Não foram fenômenos puramente morais, mas resposta à crises econômicas capitalistas. Como a sociabilidade capitalista forma para a personalidade individualista, é o salve-se quem puder! “Mil cairão à minha direita, dez mil à minha esquerda e EU não serei atingido (dane-se meu vizinho e seus filhinhos)”.

O problema é que as crises do capital são cíclicas. A única forma, segundo a teoria marxista, de romper com esse ciclo, é superando o capitalismo. E só quem pode superá-lo não é nenhum partido progressista que opera na lógica liberal de tentar “humanizar o capitalismo”. Só quem pode vencê-lo é o povo, a grande massa precisa ver na superação do capitalismo, sua única saída para uma vida emancipada. Vanguarda que pensa pelo pobre e quer por ele fazer escolhas não é revolucionária. Revolucionário é o povo, a classe trabalhadora.
Formação de base, mais arte, mais cultura em centros comunitários nas periferias, pedagogia não burguesa nas escolas, comunicação eficiente por meio das redes sociais. Não é pelo trabalhador que militamos. É com ele. Somos os trabalhadores e trabalhadoras que se libertarão em comunhão.
Lentamente e com firme propósito.
Daí eu afirmar de forma repetitiva (e chata), que da esquerda pequeno-burguesa, não revolucionária, não sai grande coisa. A esquerda que mora bem, que é protegida pelo Direito, que usufrui da estrutura da democracia liberal, acha que seu papel histórico é frequentar universidade pública e reunião em anfiteatro organizada por sindicatos. Essa esquerda que divide sua organização em “trabalho intelectual e trabalho braçal” (eles pensam, a militância pobre executa) que só conhece como pobre sua empregada doméstica – não organizará as comunidades de formação de base. Os neopentecostais estão em todas as favelas e bairros esquecidos, querem o Mova, o Conselho Tutelar, as creches conveniadas, a distribuição das cestas básicas e leite. A esquerda pequeno burguesa tá trancada em seus manifestos e análises, rodando taça de vinho.

(A propósito: a formação de base do MTST é incrível)

Nota: A imagem é o registro dos moradores do Pinheirinho resistindo à violenta desocupação ordenada pelo então governador Alckmin, atual vice-presidente de Lula, que declarou voto em Boulos. Estampou uma reportagem da Folha, há 12 anos. Não encontrei o autor da foto.

TESTE DE PROBLEMAS DE ATENÇÃO

Publicado: 15/08/2024 em Reflexões

ELIANE PINHEIRO

1. Você costuma conferir várias vezes se sua chave ou carteira está em seu bolso ou bolsa?

2. Ao sair de casa, você volta para conferir se desligou o gás, fechou a janela ou trancou a porta?

3. Você esquece com facilidade se pagou uma conta comum, daquelas que têm que ser pagas todos os meses?

4. Você se distrai facilmente quando está fazendo atividades cotidianas que está habituado a fazer?

SE VOCÊ RESPONDEU SIM À MAIOR PARTE DAS QUESTÕES:

Seu diagnóstico (caso você seja do tipo que se autodiagnostica a partir de publicações em redes sociais ao invés de procurar um profissional qualificado) é que você sofre de HÁBITO.

Segundo Vigotski:

“O hábito e a atenção ocupam posições antagônicas; sempre que o hábito cria raízes, a atenção desaparece. Todos sabem como nos

assombra o que é novo e pouco habitual, e como frequentemente não podemos dizer de que cor é o papel de parede de nosso quarto ou os olhos de uma pessoa que vemos todos os

dias. No mesmo sentido, a tarefa da atenção deve ser articularmente tensa e séria quando a conduta excede os limites do hábito e temos de realizar coisas que exigem uma reação particularmente complexa e difícil. Com relação a isso, o hábito passou a ser chamado de ‘inimigo e trégua da atenção’ […]” (VIGOTSKI, EM PSICOLOGIA PEDAGÓGICA, versão da Artmed, p. 136).

Tanto Vigotski quanto Leontiev comprovaram por meio de suas pesquisas científicas que a atenção é mais exigida em atividades novas que precedem uma operação cognitiva, isto é, uma orientação (primeiro externa e depois interna). Com a repetição, isto é, com o hábito, não há necessidade de concentrar-se na orientação porque a atividade se automatiza. É assim para aprender a ler, a dirigir, a andar, dançar, fazer tricô. O objetivo da aprendizagem nova é subjetivar o novo até ele seja tão tão seu que não exija esforço cognitivo para realizá-la no cotidiano. Por isso ao dirigir um carro esquecemos que aos sábados o caminho era outro (tãoooo distraídoooo) ou conseguimos ouvir um podcast sem ter que atentar para alguma orientação interna de quando trocar as marchas. E por isso nós, as senhoras do tricô, fazemos ponchos enquanto assistimos séries sem perder um ponto: o hábito desliga, por conveniência psíquica, a atenção voluntária (a que exige orientação externa/interna). O contrário também é verdadeiro: ter que dividir a atenção entre vários estímulos ao mesmo tempo também causa distrações porque há uma disputa entre percepção, atenção natural e atenção voluntária.

Em casos de problema de atenção dessa natureza não procure ajuda. Você só é um serumaninho mesmo.

Obs.: Você já notou que:

1. “Certas pedagogias” são inimigas da orientação e da automatização, impedindo que o novo conhecimento seja inCORPORADO, que seja subjetivado, para ser usado como ferramenta mental (instrumento simbólico) no cotidiano do aprendiz?

2. O “excesso de atenção voluntária”, o hiperfoco, surge quando nosso corpo (afeto e cognição) é provocado e se mobiliza para responder a um problema e não se satisfaz com a resposta, buscando aprofundá-la?

Muita atenção! A vulgarização de diagnósticos e os autodiagnósticos aligeirados banalizam e relativizam o sofrimento de pessoas com transtornos das funções executivas.

Mas essas outras coisas ficarão pra outro texto – acabei me distraindo e trocando de assunto.

25 de maio

Publicado: 26/05/2024 em Reflexões

ELIANE PINHEIRO

Hoje seria aniversário do meu pai.

Foi com ele que aprendi três coisas que constituem minha identidade: o amor pelos livros, a necessidade de escrever para me organizar e a busca pelo retorno à natureza. Ele era um homem que tinha rompantes de raiva e violência. Não podia ser contrariado. Sua presença em casa, no pouco tempo que lhe restava de descanso do trabalho, era cercada de uma nuvem de temor.

Meu pai nos deixava sempre muito tensos.E tinha os raros dias de alguma docilidade. São poucas as lembranças ternas. E uma delas foi de quando meu pai me salvou da dona Geni. Na primeira e na segunda série eu fui aluna de uma professora rude, incapaz de qualquer gesto de afeto carinhoso.Pra piorar, minha aparência me fazia pouco desejável.

Éramos muito pobres, eu estava sempre mal vestida e tinha muito piolho. Além disso, padecia da timidez excessiva própria dos intimidados pela vida. Minha timidez e minha vagarosidade em fazer as lições ou em responder aos estímulos de dona Geni a irritavam e faziam de mim uma figurinha ainda mais desprezível. Eu era sempre a última a terminar a cópia da lousa sob a ameaça de “vou apagar,” e aos gritos “vou apagar!”, “estou apagando!”. Eu travava ainda mais, repetia a mesma linha, pulava frases. E ela ficava ainda mais dura, mais grosseira, gritava mais. Eu jamais abria a boca para não irritá-la ainda mais.Como nossa casa também era feita de silêncios, nunca me queixei daquela violência externa. Mas teve um dia, daqueles de alguma ternura, em que meu pai olhou meu caderno cheio de lições incompletas e bilhetes. Viu a comanda do Para Casa: fazer uma poesia sobre o sol.

Sentou-se ao meu lado e me explicou que nas rimas as palavras terminam igual ou quase igual. E pediu para que eu escrevesse frases sobre o sol. Eu escrevi que o sol nasce bem de manhã e que as plantas precisavam do sol para crescer. E meu pai me ensinou a fazer um poema de quatro estrofes sobre o sol, com quatro versos cada uma. Pegou as folhas da máquina de escrever que era o objeto proibido para mim e meus irmãos. Dividiu as folhas ao meio. Escrevi um verso em cada folha com letra de mão. E depois fiz um desenho para cada verso. Pintamos juntos. Grampeamos. Dona Geni pediu uma poesia, fizemos um livro.

Coloquei na mochila que sempre estava suja. Entreguei pra dona Geni. Pela primeira vez em dois anos ela me viu. Ficou enlouquecida com meu trabalhinho escolar. Me pegou pela mão e saiu desfilando comigo pelo corredor, mostrando meu livrinho para as professoras das outras salas. Aquelas mulheres adultas com brinco de bola e batom, liam e me elogiavam. Que coisa mais linda! Olha o capricho! Que bonitinha, o sol atrás das montanhas!

Ali eu compreendi que as palavras escritas poderiam me salvar, inclusive salvarem-me de mim mesma.

Até hoje tenho nos finzinhos de madrugada um ponto de reequilíbrio e reconexão. Os afetos bagunçados voltam para suas devidas gavetas e fico menos caótica. Das cinco às seis e meia me preparo para a experiência de contemplação do céu ir clareando de pouquinho a partir de um ponto inalcançável que fica coral, laranja, rosa, amarelo ouro, amarelinho claro.

Do livrinho, lembro só a primeira estrofe:

“Gosto de acordar cedo

Para ver o sol nascer

Brilhando por trás da serra

Fazendo a planta crescer”

Feliz aniversário, pai!

Com paixão

Publicado: 26/05/2024 em Reflexões

ELIANE PINHEIRO

Chove fininho.

Tomo café logo cedo na companhia da minha gatinha, de uma manta e de um livro. É daqueles que chegaram às escolas da prefeitura de São Paulo, Vigotski, sobre Imaginação e Criatividade. Na medida que lia, me encantava.

“Encantamento”.


Que sentimento gostoso, que delicinha. E me pus a pensar nesse afeto, do encantamento. Larguei o livro pra pensar na dialética razão-emoção. E vim hablar com vcs porque minha habilidade de pensar só com meus botões é bem baixa.
Fiquei pensando o quanto Agnes Heller estava certa ao dizer do fracasso do racionalismo liberal que, de forma dicotômica, achava que a razão era superior às emoções e sentimentos e, por isso, alimentava a ilusão de que esta poderia suplantar a paixão.
Espinosa, um racionalista que dá um salto qualitativo na filosofia racionalista, escreveu que somente uma paixão mais forte pode suplantar uma paixão forte.
Acho que é por isso que gosto tanto de Vigotski. Ele foi a paixão que conseguiu me arrancar da paixão pelo construtivismo e por Piaget.
Quando comecei a ler a obra piagetiana, a qual achava bem difícil, me apaixonei pela sua defesa dos métodos ativos, do escolanovismo. Encantava-me com a sua observação minuciosa das crianças pequenas formulando hipóteses interessantímas apesar da pouca idade.
Foi, porém, com “O Juízo Moral da Criança” que fiquei absolutamente apaixonada. Como ninguém nunca nos falou sobre essa obra nos cursos de magistério ou de pedagogia? A afirmação de que humanos não éticos poderiam pensar e agir orientados por uma ética, isto é, poderiam desenvolver sua autonomia moral, era simplesmente extraordinária! E se nós pudermos colaborar com o desenvolvimento ético de nossos alunos? Que mundo podemos construir? Uau!
Todavia, eu andava, na prática da sala de aula, angustiada com a contradição entre o que eu desejava fazer e o que ocorria, de fato, no cotidiano escolar. E não digo apenas das condições concretas (é óbvio que uma sala de aula construtivista requer outra materialidade não existente na escola pública). Eu começava a não conseguir mais ignorar que as crianças não chegavam aos conceitos científicos sem ensino explícito. Por mais que eu buscasse encorajá-las o tempo todo a formular novas hipóteses sobre suas hipóteses, por mais próximo que chegassem ao conceito, era por meio do ensino explícito que elas realmente organizavam o pensamento empírico, desenvolvendo-se.
Foi num sábado à tarde, num encontro para discussão sobre nossas angústias pedagógicas no apartamento de uma amiga, num grupinho despretensioso de quatro pessoas, que meu mundinho idealista começou a ruir.
Meu amigo marxista, com a não docilidade que lhe era própria, depois de tentar interromper minha fala algumas vezes, sentenciou, com deboche, ao fim de meu desabafo: “Aí também não dá, companheira… você quer resposta para o real partindo de um idealista…” E cravou a faca em meu coração comunista: “PIAGET É LIBERAL PRA CAR@LH0! UM PUT@ DE UM LIBERAL”.
“Piaget é liberal pra carvalho!”.
“Um puta dum liberal al al al…”
Isso ecoou de forma muito dolorida dentro de mim.
Segurei pra não chorar. Minha vontade era fazer como as crianças fazem: “Não é não, ele é lindo, vc é feio e bobo!”. Eu só tentei argumentar que o meu amigo que não tinha entendido o construtivismo. Aff, ele se quer conhecia “O Juízo Moral da criança” e a defesa linda que Piaget fazia da democracia, da liberdade, da igualdade. Mas ele, ainda mais fofo, girou a faca já cravada em meu peito: “Então você não é comunista, é reformista… ou liberal também”. E riu.
Eu? Liberal? Só se fosse o cool dele. Che Guevara, Rosa Luxemburgo, Paulo Freire e eu alimentávamos o mesmo sonho.
O encontro, então, perdeu a graça. A amizade com o meu amigo perdeu a graça. O grupo de desabafo, estar entre os “professores progressistas”, tudo era uma merd@.

Eu estava triste pq alguém atentou contra a minha paixão. Piaget era contra o autoritarismo do ensino tradicional e isso me bastava. Babaca.

(Ooooo By myself
I ask why but in my mind I find
I can’t rely on myself, myself
What do I do to ignore them behind me?
Do I follow my instincts blindly?
Do I hide my pride from these bad dreams
And give into sad thoughts that are maddening?
Oooooo bai ma-a- i seeelf)

Passei dias dolorida. E, ressentida, fui procurar as críticas ao Piaget e achei Vigotski na esquina piscando sensualmente pra mim.
Não entendia muita coisa, achei dificílimo, mas percebia que um era diferente do outro, só não compreendia realmente em que, pois me pareciam muito semelhantes.
Fui para o mestrado para decifrar o desenvolvimento da moralidade e as contradições da teoria piagetiana nas suas respostas para a questão da violência escolar entre estudantes. E foi, enfim, nesse lugar, com professoras que podiam me ajudar a encontrar respostas (beijos pra Ia, Ana Bock, Bader, Graça, Mimi) e com colegas que gostavam de discutir os entraves e os novos encantamentos teóricos tanto quanto eu, que fui organizando, num longo processo, caótico e com saltos modestos e lentos… que fui costurando a muitas mãos a coerência entre minha escolha política, uma psicologia e uma pedagogia que não a negasse.
Veio Saviani e seus orientandos, seus colaboradores. Veio explicação científica para minhas perguntas. Veio uma nova paixão para suplantar uma antiga paixão. E lá se vão onze anos…
Conto essa história grandona para reafirmar que não mudamos a forma de pensar por vias puramente racionais. O tio reaça do churrasco, que repete falas fascistas e nem é um fascista, não vai mudar sua forma de pensar sem que sua forma de sentir seja também transformada.
A esquerda (cujos intelectuais, em sua maioria, são homens héteros presos à subjetividade patriarcal durona e racionalista, esses machões que não choram senão diante da mais sublime arte) precisa voltar à dialética subjetividade-objetividade e à concepção monista de humano se quiser, de fato, dialogar com as massas. Nossa fala ainda é direcionada para o outro intelectual crítico que está do outro lado me lendo, me ouvindo, me analisando. Nossa preocupação ainda é não escorregar nos conceitos. E escolhemos escorregar em outra coisa. Se negamos o que há de mais humano nos humanos – suas paixões – entregamos nossa luta a quem dialoga com as subjetividades de forma não dialética: os movimentos de identidade que consideram o sofrimento humano; os movimentos cirandeiros que querem mudar o mundo apenas com fogueira, horta orgânica e sexo livre; as igrejas neopentecostais que dão respostas falsa a questões que cortam a carne do nosso povo. Então nossa fala deve ser simplista e esvaziada de filosofia e ciência? É claro que não. Claro que não!
Mas necessariamente deve partir do senso comum para dele se elevar (Saviani está certo 😌). Deve partir da problematização das práticas sociais e não das abstrações mais sofisticadas.
Vigotski diz que um conceito deve ser sempre ensinado como resposta a um problema.
Marx e Engels escreveram que a teoria só se efetiva num povo na medida que esta seja representação de suas necessidades.
Nosso movimento deve ser da educação no sentido amplo, como defende Meszáros, para além da educação escolar com seus limites.
Sem medo de falar em amor, como tem insistido Celso Vasconcellos.
Sem perder de vista a multiplicidade de determinações, como defende Angela Davis.
Para e com as massas, como nos ensina a vivíssima Rosa Luxemburgo.
De gente inteira – com suas paixões – para gente inteira.